Quando o vômito é expressão da dor psíquica
Sempre observo meus pacientes além dos sintomas que os trouxeram, num primeiro momento, até mim. Há aqueles que chegam ao meu consultório com tamanha angústia que ela chega a ter uma “forma palpável”, como uma dor no peito, uma falta de ar recorrente, um nó na garganta que os impede até de comer ou ainda sintomas somáticos, como vômitos, cefaleias ou dores no estômago.
Recentemente, atendi uma paciente, beirando os trinta anos, com uma angústia tão intensa que seu mecanismo de defesa foi transformá-la, literalmente, em vômitos. As manhãs passaram a ser difíceis de viver (ou “digerir”), gerando uma defesa automática pela busca de alívio, como na provocação de vômitos. “Eu preciso tirar essa angústia de mim”, disse a paciente de forma enfática. Ao escutar esse relato, percebi seu sofrimento e sua necessidade de ajuda para sair desse processo. Tratava-se, no caso, de uma recaída depressiva.
Minha observação aqui, neste texto, é mostrar que, se o médico focar apenas no sintoma e no método purgativo da paciente, pode seguir a linha de pensamento de que ela estaria iniciando um quadro de Transtorno Alimentar. Porém, neste caso, o vômito era sua forma “viva” de angústia, como se fosse a única alternativa de aliviar a dor que vinha de dentro dela.
Essas defesas fazem parte do processo de enfrentamento da angústia. Enxergá-las apenas como sintomas pode levar o psiquiatra a negligenciar, de certa forma, a dimensão do sofrimento do paciente. É fundamental trabalhar com o paciente esse comportamento e o entendimento dessa ânsia que encontra alívio na provocação do vômito.
Como seria interessante se fosse possível colocar para fora uma angústia, ainda mais se fosse “tão simples” como em um vômito. Veja: escrevi “tão simples”, mas nenhum processo psíquico é simples, pelo contrário. Aqui podemos perceber um complexo, como Carl Jung citava em seus estudos. No caso dessa paciente, um complexo ativado por fatores externos estressantes.
O psicofármaco ajuda nos sintomas, mas o entendimento desses complexos é um processo em que o paciente vai se aprofundando no autoconhecimento e, assim, “amenizando” tais defesas, para que elas não se transformem em somatização.
Como médica psiquiatra, considero importante entender realmente como meu paciente lida com suas angústias e como elas comandam seus comportamentos atuais.
Quando a angústia fala mais alto, encontramos aqui um caminho para ajudar ainda mais os nossos pacientes.
Com carinho,
Mariza Matheus
Médica psiquiatra
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