Reflexões – Mundo Psiquiatria https://mundopsiquiatria.com por Dra. Mariza Matheus Wed, 20 Aug 2025 19:37:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 243705232 Quando o vômito é expressão da dor psíquica https://mundopsiquiatria.com/2025/08/20/quando-o-vomito-e-expressao-da-dor-psiquica/ Wed, 20 Aug 2025 19:32:38 +0000 https://mundopsiquiatria.com/?p=50 Sempre observo meus pacientes além dos sintomas que os trouxeram, num primeiro momento, até mim. Há aqueles que chegam ao meu consultório com tamanha angústia que ela chega a ter uma “forma palpável”, como uma dor no peito, uma falta de ar recorrente, um nó na garganta que os impede até de comer ou ainda sintomas somáticos, como vômitos, cefaleias ou dores no estômago.

Recentemente, atendi uma paciente, beirando os trinta anos, com uma angústia tão intensa que seu mecanismo de defesa foi transformá-la, literalmente, em vômitos. As manhãs passaram a ser difíceis de viver (ou “digerir”), gerando uma defesa automática pela busca de alívio, como na provocação de vômitos. “Eu preciso tirar essa angústia de mim”, disse a paciente de forma enfática. Ao escutar esse relato, percebi seu sofrimento e sua necessidade de ajuda para sair desse processo. Tratava-se, no caso, de uma recaída depressiva.

Minha observação aqui, neste texto, é mostrar que, se o médico focar apenas no sintoma e no método purgativo da paciente, pode seguir a linha de pensamento de que ela estaria iniciando um quadro de Transtorno Alimentar. Porém, neste caso, o vômito era sua forma “viva” de angústia, como se fosse a única alternativa de aliviar a dor que vinha de dentro dela.

Essas defesas fazem parte do processo de enfrentamento da angústia. Enxergá-las apenas como sintomas pode levar o psiquiatra a negligenciar, de certa forma, a dimensão do sofrimento do paciente. É fundamental trabalhar com o paciente esse comportamento e o entendimento dessa ânsia que encontra alívio na provocação do vômito.

Como seria interessante se fosse possível colocar para fora uma angústia, ainda mais se fosse “tão simples” como em um vômito. Veja: escrevi “tão simples”, mas nenhum processo psíquico é simples, pelo contrário. Aqui podemos perceber um complexo, como Carl Jung citava em seus estudos. No caso dessa paciente, um complexo ativado por fatores externos estressantes.

O psicofármaco ajuda nos sintomas, mas o entendimento desses complexos é um processo em que o paciente vai se aprofundando no autoconhecimento e, assim, “amenizando” tais defesas, para que elas não se transformem em somatização.

Como médica psiquiatra, considero importante entender realmente como meu paciente lida com suas angústias e como elas comandam seus comportamentos atuais.

Quando a angústia fala mais alto, encontramos aqui um caminho para ajudar ainda mais os nossos pacientes.

Com carinho,

Mariza Matheus
Médica psiquiatra

Instagram: @dramarizamatheus e @meu.cadernolaranja

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Consultório em Uberlândia (MG): Av. Getúlio Vargas 275, sala 401. Centro. WhatsApp: (34) 99895-2991

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Positividade tóxica nas redes sociais https://mundopsiquiatria.com/2025/04/27/positividade-toxica-nas-redes-sociais/ https://mundopsiquiatria.com/2025/04/27/positividade-toxica-nas-redes-sociais/#respond Sun, 27 Apr 2025 12:57:37 +0000 https://mundopsiquiatria.com/?p=42 Já ouviu falar em positividade tóxica?

É aquela pressão (interna ou externa) para enxergar tudo pelo lado positivo — mas de forma exagerada, como se não fosse permitido sentir tristeza, frustração ou simplesmente “estar de baixo astral”. Não é como o conceito de Pollyana (do livro de Eleanor H. Porter), que fala sobre encontrar o lado bom das coisas. Aqui, é quase uma obrigação de ser feliz o tempo todo.

Nas redes sociais, isso é ainda mais evidente. E me pergunto: como isso afeta pacientes com depressão? Nossos humores oscilam, reagimos às situações. Não dá para ignorar sentimentos ruins e fingir que tudo é perfeito — como se, ao não “pensar positivo”, estivéssemos criando nossa própria infelicidade.

Vou falar como uma pessoa normal (acho que sou normal, rsrsrs): tem dias que só quero ficar na minha. Outros em que não tenho ânimo para sorrir ou ser “fofinha”. Não consigo ter o mesmo humor o tempo todo. Isso é o normal (não estou me referindo aos transtornos psiquiátricos). Ao nos cobrarmos uma estabilidade rígida de um estado de humor (no caso, positivo), é como se cobrássemos de nós mesmos para não sermos nós mesmos, entende?

Isso vira um problema quando os momentos negativos dominam nossa vida, mas o excesso de positividade também pode ser prejudicial — uma fuga da realidade, um jeito de evitar conflitos ou soluções necessários.

Sinceramente? Acho cansativo conviver com pessoas exageradamente positivas. Sei que isso é uma máscara “nada saudável” para a psique da pessoa. Prefiro gente real, que assume quando está tendo um dia ruim.

Lembre-se: acordar de “pé esquerdo” não é licença para desrespeitar os outros, mas forçar alguém a ser positivo o tempo todo pode impedi-lo de pedir ajuda quando precisar.

No meu caso, quando percebo que estou crítica demais em relação a esse tema, simplesmente sumo das redes sociais por um tempo. Autoconhecimento é isso: saber quando recuar.

E você? Consegue diferenciar uma pessoa otimista de alguém que está na positividade tóxica?

Minha orientação como psiquiatra: Não há problema em não enxergar o lado bom de tudo. Se os pensamentos negativos estiverem dominando seu dia a dia, afetando seus relacionamentos ou trabalho, busque ajuda. Não se compare a “personagens” da internet — lá, todo mundo parece dar conta de tudo, mas na vida real, somos humanos, com altos e baixos.

Abraços,
Mariza Matheus
(médica psiquiatra que tem dias de mau humor)


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A Eterna Busca do Autoconhecimento https://mundopsiquiatria.com/2025/04/26/a-eterna-busca-do-autoconhecimento/ https://mundopsiquiatria.com/2025/04/26/a-eterna-busca-do-autoconhecimento/#respond Sat, 26 Apr 2025 12:16:42 +0000 https://mundopsiquiatria.com/?p=36 Esses dias, eu estava conversando com minha irmã sobre a angústia constante que nossa psique enfrenta ao tentar definir quem somos. Talvez, durante a maior parte da vida, essa busca não seja consciente — mas chega um momento em que olhamos para dentro, seja por sofrimento ou simplesmente pela maturidade que o tempo traz.

Desde a adolescência, tenho o hábito de questionar a vida e meus próprios comportamentos em diferentes situações. Não é à toa que escolhi a psiquiatria. Acredito que viver é exatamente isso: buscar conhecer-se cada vez mais, entender que todos estamos nessa mesma jornada de autoconhecimento (alguns de forma consciente, outros nem tanto). E, refletindo sobre isso, pergunto: o que realmente faz sentido? Correr atrás de ter sempre mais ou aprender a encontrar paz em sermos quem somos?

Este ano completo 51 anos e posso dizer que estou na minha melhor fase mental. Gosto da minha companhia e já fiz as pazes comigo em muitos aspectos. Se eu partir (falecer) em breve, sairei em paz, satisfeita. Cheguei a um ponto em que essa busca por autoconhecimento tornou-se um processo generoso, não mais angustiante. Entendo que somos mutáveis e que as “Marizas não admiráveis” do passado já se foram. Não fico mais remoendo os “porquês”; vivo o presente sem grandes expectativas, apenas curtindo meus momentos filosóficos, entendendo que a vida segue seu curso — independente dos meus desejos ou apegos.

Se pudesse dar um conselho, seria este: trate-se como seu melhor amigo. Não se aprisione ao passado com rigidez. (Re)comece hoje, seja uma nova pessoa agora. Sempre podemos reescrever nossa história, e o autoconhecimento é, sim, uma busca eterna — porque estamos em constante transformação. Não caia na armadilha das redes sociais, que vendem autoconhecimento como uma fórmula simples, um “passo a passo”. Esse processo é único e, na minha opinião, especial.

Quando enfrentar momentos difíceis, lembre-se: tudo passa. Adoro refletir sobre a impermanência — tudo tem um começo, meio e fim. A vida, para mim, é isso: uma coleção de ciclos que se renovam. O sentido está justamente nessa busca eterna por me entender e, quem sabe, um dia chegar a um ponto onde eu possa dizer: “Estou 100% confortável em ser quem sou”.

E você? Acha que já se conhece por completo?

Eu sigo nessa jornada, mas agora de forma mais serena…

Com carinho,
Mariza Matheus
Médica psiquiatra e “filósofa amadora” 🙂


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